Diante do agravamento das mudanças climáticas e da crescente pressão sobre os recursos hídricos, o investimento em tecnologias sustentáveis no setor de saneamento deixou de ser uma tendência para se consolidar como uma necessidade imperativa, se configurando, deste modo, como um dos pilares fundamentais para enfrentar os desafios hídricos, ambientais e sociais do século XXI.
Atualmente, o reúso da água, o tratamento avançado de efluentes e o monitoramento remoto por meio da Internet das Coisas (IoT) configuram soluções tecnológicas viáveis e estratégicas para promover a redução do consumo hídrico, minimizar a poluição e integrar o saneamento aos princípios da economia circular e da eficiência operacional.
O reúso planejado da água configura-se como uma das principais estratégias para enfrentamento da escassez hídrica, especialmente em regiões semiáridas, como os municípios do Nordeste brasileiro. Entre as soluções tecnológicas voltadas ao reúso e ao tratamento de esgoto, destaca-se a captação e o tratamento de águas cinzas , aquelas provenientes de pias, chuveiros e máquinas de lavar, isentas de carga fecal, por meio de sistemas como o Bioágua. Tais sistemas possibilitam o aproveitamento da água tratada em usos não potáveis, como descargas sanitárias, limpeza de áreas externas e irrigação de culturas agrícolas, como frutíferas e forrageiras.
No tangente do tratamento avançado dos efluentes, as Estações de Tratamento de Esgoto (ETE) vêm evoluindo de sistemas convencionais para modelos mais eficientes e sustentáveis. Tecnologias como membranas de ultrafiltração, osmose reversa, processos de oxidação avançada (POA), biorreatores com membranas (MBR) e tratamento por eletrocoagulação permitem uma remoção mais eficaz de contaminantes emergentes, como fármacos, microplásticos, metais pesados e patógenos. Essas tecnologias, embora mais custosas inicialmente, oferecem benefícios ambientais e econômicos no longo prazo, viabilizando o reuso seguro da água e a recuperação de subprodutos como biogás, nutrientes (nitrogênio e fósforo) e até biomassa para geração de energia.
No âmbito do monitoramento inteligente, os gêmeos digitais aplicados ao saneamento representam uma inovação disruptiva, transformando a forma como os sistemas de abastecimento de água e esgotamento sanitário são projetados, operados e gerenciados. Trata-se de réplicas virtuais dinâmicas de infraestruturas físicas ,como estações de tratamento, integradas a sensores e plataformas de IoT, capazes de fornecer dados contínuos e em tempo real sobre o desempenho operacional. A partir dessas informações, é possível simular cenários, prever falhas, otimizar rotas de manutenção e embasar a tomada de decisões por meio de análises preditivas, o que contribui diretamente para o aumento da eficiência operacional, a redução de perdas hídricas e a mitigação de custos e riscos ambientais.
A adoção de tecnologias sustentáveis no saneamento acarreta impactos positivos em diversas dimensões. Sob a ótica ambiental, destacam-se a redução da captação em mananciais, a diminuição do lançamento de efluentes em corpos d’água e o controle da poluição difusa. No aspecto econômico, os benefícios incluem a redução de custos operacionais, a menor dependência de insumos externos e a valorização dos ativos municipais, com a implementação de serviços mais inteligentes, resilientes e alinhados às diretrizes do desenvolvimento sustentável.
As inovações sustentáveis no saneamento não são apenas tendências tecnológicas, mas necessidades urgentes diante das mudanças climáticas, da escassez de recursos e da crescente demanda por serviços públicos de qualidade. O reuso de água, o tratamento avançado de efluentes e o monitoramento inteligente formam um tripé estratégico para a construção de cidades seguras e sustentáveis.
Investimentos em pesquisa, capacitação técnica e marcos regulatórios são essenciais para a consolidação dessas práticas no Brasil. A articulação entre governo, setor privado, universidades e sociedade civil será o motor da transformação sustentável do saneamento no país.
REFERÊNCIAS
Sistema de Tratamento de Esgoto e Reúso Agrícola. Disponível em: https://www.car.ba.gov.br/node/14989.
WANG, A.-J. et al. Digital twins for wastewater treatment: A technical review. Engineering, v. 36, p. 21–35, 2024.
World Bank (2020). Wastewater: From Waste to Resource – The Case of Sanitation in the Circular Economy. Disponível em: https://www.worldbank.org/en/topic/water/publication/wastewater-initiative